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Os Beatles, a passagem do tempo e a IA.

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Os Beatles, a passagem do tempo e a IA.
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Há cerca de 1 ano, tive o privilégio de assistir a um show do Sir Paul McCartney. Hoje, ao relembrar esta experiência memorável da turnê Got Back e após ler sobre o uso da IA no meio artístico, achei que seria interessante escrever algo casualmente sobre os dois temas.

Sem dúvidas, assistir a uma apresentação do lendário Paul McCartney é algo que mexe com as emoções. Foram quase 3 horas de um set list diverso, não somente de seu trabalho solo, o período com os Wings e os sucessos da época de Beatle. Eles conseguiram atravessar gerações com suas canções e o fazem até hoje. Mesmo décadas depois do auge da beatlemania, continuam a se comunicar com o público: seja na mensagem esperançosa de Hey Jude, na perfeita descrição do início da vida adulta em Help ou na reflexão sobre a brevidade do tempo em Yesterday.

imagem retirada do acervo pessoal do autor

Um dos motivos desta banda ter cimentado seu nome entre os clássicos é justamente pelo fator de serem abertos a explorar e se arriscar na experimentação de novas tecnologias sonoras. Um exemplo foi a incorporação de instrumentos de corda em suas composições, algo pouco comum no universo pop/rock da época que, graças a eles, se popularizou.

Porém, décadas depois, os Beatles ainda tinham uma última canção a ser finalizada. Now and Then, uma demo deixada por John Lennon, foi revista em 1994 pelos membros restantes da banda com a ajuda do produtor Jeff Lynne. Na época, Paul, Ringo e George acreditavam que teriam muito mais tempo para concluir a faixa juntos. Às vezes, nós sempre pensamos que teremos tempo o suficiente para finalizar algo no prazo perfeito que imaginamos. Tristemente, com a partida de Harrison em 2001, essa esperança foi abalada, além do fato de a tecnologia disponível ainda não ser avançada o suficiente para “extrair” a voz de Lennon em meio aos ruídos e instrumentos em que estava “escondida” na gravação original.

Mas em 2023, durante a produção do documentário Get Back, foi possível “isolar trilhas sonoras e dividir os componentes em faixas separadas” com a tecnologia desenvolvida pela equipe de áudio do diretor Peter Jackson. Por meio de Machine Learning, possibilitou-se realizar o processo de isolamento dos vocais de Lennon sem aumentar o som do piano — citando a fala de Paul McCartney: “we could lift John’s voice without lifting the piano.” Já que a gravação era caótica e ruidosamente poluída por se tratar de uma demo.

Os instrumentos de corda foram gravados nos estúdios da Capitol Records, com a ajuda de Giles Martin, filho de George Martin, produtor musical que trabalhou com os Beatles por vários anos. O objetivo era que a faixa ressoasse o estilo conhecido dos álbuns anteriores, então, nada melhor que trazer o próprio filho do produtor responsável por sugerir o uso de cordas nas faixas da banda. Paul McCartney, admirador de Buddy Holly — outro artista de quem gosto bastante, que já havia utilizado cordas em suas faixas — resolveu acatar a ideia. A canção Yesterday se tornou um marco, popularizando o uso de instrumentos de corda na música popular que antes era notoriamente associado à música clássica. Retornando ao processo de finalização de Now and Then: outro ponto importante é que eles queriam que todos os Beatles “estivessem presentes” na canção, então foram utilizadas as gravações de guitarra feitas por George em 1995. Paul gravou o solo usando a técnica de slide guitar de Harrison como uma forma singela de homenagear o amigo.

A apresentação desta faixa foi emocionalmente marcante, não apenas pelo impressionante emprego da tecnologia para trazer esta canção de volta e permitir que os presentes no show pudessem ouvi-la, como por todo o processo que me fez refletir sobre a passagem do tempo. Ouvir Paul cantar enquanto as fotografias dos Beatles ao longo de décadas eram exibidas no telão, o dedilhar as cordas… Eles pareciam ser tão próximos, então, de repente, John e George não estavam mais lá… foi impossível não pensar na minha própria vida e nas pessoas que fazem parte dela, como as coisas são tão voláteis, estão aqui e logo não existem mais.

Há bastante debate em torno do que a IA deveria ou não fazer, principalmente no que tange à arte e às emoções humanas, mas naquele momento eu não via somente algo “frio, superficial e robótico feito com a IA”. Mas sim, enxergava a beleza através da ferramenta que possibilitou realizar um sonho tão adiado de dois músicos, Ringo e Paul, de poder gravar uma última canção com seus amigos e companheiros de banda.

Fontes utilizadas para escrever este artigo

  • Minha própria lembrança do show: experiência pessoal vivida durante a apresentação da Got Back tour de Paul McCartney no Brasil.

  • Imagem do show retirada do arquivo pessoal do autor.

  • Documentário Now and Then — The Last Beatles Song, dirigido por Oliver Murray. Disponível em: Youtube.

  • Rolling Stone BrasilPrimeiro contrato, orquestração e experimentalismo: relembre a relação de George Martin com os Beatles. Acesso em: rollingstone.com.br

  • Strings MagazineHow the Beatles Launched a String-Playing Revolution. Acesso em: stringsmagazine.com

  • BBC NewsBeatles' Revolver: 'It's time travel' says Giles Martin. Acesso em: bbc.com

  • Documentário The Beatles: Get Back, dirigido por Peter Jackson. Produzido pela WingNut Films e Disney, lançado em 2021.

A todos que dedicaram seu tempo a ler este artigo, muito obrigado.